OS FILHOS DOS DIAS

 

Eduardo GaleanoEduardo Galeano (tradução Virgílio de Mattos)

Agosto 30

Dia dos desaparecidos

Desaparecidos:

os mortos sem tumbas,

as tumbas sem nome,

as mulheres e os homens que o terror engoliu,

os bebês que são ou tenham sido butim de guerra.

E também:

os bosques nativos,

as estrelas na noite das cidades,

o aroma das flores,

o sabor das frutas,

as cartas escritas à mão,

os velhos cafés onde havia tempo para perder tempo,

o futebol de rua,

o direito a caminhar,

o direito a respirar,

os empregos seguros,

as aposentadorias seguras,

as casas sem grades,

as portas sem fechadura,

o sentido comunitário

e o sentido comum.

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ENTRE O VULGAR E O MEDÍOCRE

Virgílio de Mattos

“Sucesso é o que o povo quer”, dizia sempre meu pai, sabidamente um homem de poucas metáforas.

O fato do “povo” ter querido o nazifascismo ou os salvadores da pátria que lhes faziam as vezes não empana e nem empena a metáfora paterna: sucesso é o que o povo quer, ouvi-o dizer centenas de vezes quando alguma “moda nova insuportável” deixava a gente entre o perplexo e o embasbacado.

Povo, segundo Menelick Netto, é uma palavra “gorda” como democracia, maioria e, agrego eu um pouco enfastiado: baixaria.

O que festejar? Já vi a classe média marchar com deus pela democracia, na verdade quem fazia o substituto de deus era um padre estadunidense, da CIA, e a democracia era só um sufixo, espécie de terminação nervosa que deixou muita gente idem.

Passado um bom tempo (quatro anos não é um tempo razoável? Pergunte a um preso ou a uma paixão) o governo do estado de Minas Gerais reconhece que faz maquiagem com os números estatísticos da segurança pública do estado. É o que diziam todos hoje na audiência pública conjunta (Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública) da Assembléia Legislativa. Quando digo todos, refiro-me a deputados governistas, coronéis, subsecretários, ex-subsecretários, policiais civis de vários níveis, praças e até mesmo o ouvidor de polícia.

Lembrei-me de uma pesquisa que realizei há quatro anos, mais ou menos, sobre a euforia incontida do “oásis Minas” em meio a um mundo violento, vendiam a “queda drástica da criminalidade” quando, na verdade, ela avançava por todo o estado. Denominei aquela pesquisa de O TRUQUE DOS NÚMEROS e fazia uma brincadeira com um antiquíssimo jogo de cartas (marcadas, obviamente): O ÁS GANHA, OS VALETES PERDEM, comum em todos os entornos de todas as rodoviárias, tinha muito “esperto” que jogava e perdia tudo, até mesmo as esperanças.

A DEFESA SOCIAL AVANÇA? Era a pergunta primeva que me fazia em 2008, quando a propaganda era avassaladora das “maravilhas” do estado.

Do alto de minha incredulidade crônica cantarolava mentalmente um velho Arnaldo Baptista “Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?/Sou malandro velho/Não tenho nada com isso” enquanto moía os números da Secretaria de Defesa Social. Àquela época a defesa social estava no ataque, seu ataque sempre feroz contra os pobres, agora a máscara cai.

Retomo, leitor amigo e antigo (afinal, desde 2008 pelo menos você vem tendo paciência comigo), aquelas considerações preliminares, atualíssimas como nunca, uma vez que agora os próprios “envolvidos” já não mais se entendem a respeito da maquiagem que deve ser empregada. Eis as indagações de 2008, comparem com o que assistimos hoje na audiência pública conjunta e tirem suas próprias conclusões:

1. É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE, DISTRAÍDOS SÓ SÃO PROTEGIDOS NA CANÇÃO

Divulgado com extremo estardalhaço – é na propaganda dos “feitos” do governo do estado que Minas mais avança, mesmo que tenha que deixar a verdade para trás – o recente Anuário de Informações Criminais de Minas Gerais pode enganar aos incautos, servir para o aplauso entusiasta dos apaniguados e áulicos, mas não resiste a uma análise crítica. Por superficial que seja, como esta se pretende.

A Fundação João Pinheiro, onde localizada a intelligentzia da famosa Escola de Governo, adverte que: “não tem acesso aos dados primários ou às rotinas de produção ou registro destes dados e, portanto, não pode responsabilizar-se pela sua factibilidade” .

Mas isso talvez não passe de um excesso de zelo, de uma fórmula utilizada para se garantir de alguma manipulação ou magia havida nos dados primários, ou mesmo nas rotinas de produção ou registro dos mesmos, a ela repassados.

Afinal, são ou não são factíveis os números? O que me diz você, leitor? Está tudo calmo no seu bairro, com você e com os seus? Seus filhos e netos andam tranquilos, seguros pelas cidades de Minas? Esse propalado achatamento dos números da criminalidade violenta atingiu sua cidade, seu bairro? O bom mocismo dos bons moços deixa sua família mais confortável? Os agentes de repressão agem dentro dos parâmetros legais? Você está satisfeito com eles?

Tivéssemos a enormidade de recursos, humanos, financeiros e correlatos aportados na publicação e para a feitura da publicação, sobretudo, por certo nossas perguntas seriam outras, ou estas feitas acima?

Pretendemos tratar desse truque numérico, na verdade alguma coisa de muito simples, parecem aqueles jogadores que pululam nos arredores das rodoviárias das cidades de Minas – e também de outros estados, esse mágicos são numerosos e saltimbancos! -, com um caixote e três cartas de baralho: um ás e um par de valetes. Ficam embaralhando freneticamente as cartas e dizendo: “o ás ganha, as outras perdem”.

Em termos de criminalidade e seu controle, a não ser quando se trata de publicidade, há muito não vê o povo mineiro sair o ás…

A leitura do trabalho elaborado, com gráficos e tabelas coloridos, coisa fina, faz nos lembrar o rock antigo de Arnaldo Baptista, perguntando (indiretamente) à Rita Lee, sua ex-esposa, se ela achava que ele era ingênuo, “otário”, como dizem os malandros aprendizes. Ou “loki” como se dizia então.

Será que estão pensando que a opinião pública é ingênua, otária, ou loki? Ou, pior: todas as alternativas anteriores?

2. NÚMEROS SÃO COMO PAPEL: ACEITAM TUDO. ATÉ MESMO UMA ANÁLISE EXTERNA?

Desde o primeiro momento o atual governo do estado disse que faria a repressão como quem pulveriza inimigos: implacavelmente . E que construiria cadeias, presídios e penitenciárias. Que a polícia prenderia bandidos e não produziria bandidos como em outros estados da Federação. Que a sensação de insegurança seria extirpada da sociedade, era apenas isso que faltava e, atentos todos, tranquilos, a defesa social estava no ataque…

Houve tempos ainda piores no tempo da repressão em Minas. Tempo da “polícia do Tancredo é igual a do Figueiredo” , tempo do “bandido em Minas não fica famoso, a polícia mata antes”. Tempo do “Minas está aonde sempre esteve”.

Com a tal gestão e modernidade que prometerem aos incautos eleitores os sociais democratas, autointitulados tucanos, tivemos um festival de barbaridades no controle do desvio.

Mas a própria Fundação João Pinheiro, órgão oficial da intelligentzia do estado, ao apontar as definições metodológicas usadas no trabalho nos dá algumas pistas interessantes do truque, observem:

“CRIMES VIOLENTOS: Ocorrências classificadas como Homicídio, Homicídio Tentado, Estupro, Roubo e Roubo a Mão Armada, segundo a caracterização determinada pelo Código Penal Brasileiro”

Na verdade o Código Penal não trata de “roubo a mão armada”, quem faz isso é a mídia. O CP trabalha com majoração da pena no caso de roubo (a subtração violenta com emprego de grave ameaça ou violência real ) se há o emprego de arma, seja foice, faca ou facão, chave de fenda ou revólver. A verdade é que os crimes violentos seguem aumentando, exceto no terreno fértil e bem pago da propaganda.

Retomo hoje, passados quatro anos, a tristeza que me acometeu no passado: esses caras estão pensando que somos otários. A “casa caiu”, a máscara caiu e quase ia dizendo: puta que pariu – mas refreei-me a tempo – como eu detesto ter razão em certas ocasiões.

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Cultura contra la impunidad

Não tiveram um julgamento justo.
Não tiveram advogado.
Não tiveram sentença e foram todos mortos.
Desde 1936 os parentes os buscam.
Demoraremos quanto em resgatar todos os nossos detenidos desaparecidos?

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A promessa

 

C. Wright Mills (1916 – 1962)

Hoje os homens sentem muitas vezes que suas vidas privadas são uma série de armadilhas. Sentem que, em seus mundos cotidianos, não conseguem superar suas dificuldades e, com freqüência, estão inteiramente corretos nesse sentimento: aquilo de que os homens comuns estão diretamente conscientes e o que tentam fazer está limitado pelas órbitas privadas em que vivem; suas visões e seus poderes estão limitados às cenas em close-up de trabalho, família, vizinhança; em outros meios, eles se movem à custa de outros e permanecem espectadores. E quanto mais conscientes se tornam, ainda que vagamente, de ambições e ameaças que transcendem seus ambientes imediatos, mais parecem sentir que caíram em armadilhas.

Wright Mills pilotando sua BMW

Subjacente a essa sensação de ter caído numa armadilha há mudanças aparentemente impessoais na própria estrutura de sociedades de extensão continental. Os fatos da história contemporânea são também fatos sobre o sucesso e o fracasso de homens e mulheres individuais. Quando uma sociedade é industrializada, um camponês torna-se um operário; um senhor feudal é liquidado ou torna-se um homem de negócios. Quando classes ascendem ou decaem, um homem é empregado ou desempregado; quando a taxa de investimento sobe ou desce, um homem ganha novo ânimo ou vai à falência. Quando guerras acontecem, um vendedor de seguros torna-se um lançador de foguetes; um almoxarife, um operador de radar; uma esposa vive sozinha; uma criança cresce sem pai. Nem a vida de um indivíduo nem a história de uma sociedade podem ser compreendidas sem que entendamos ambos.

No entanto, os homens não costumam definir as dificuldades que enfrentam em termos de mudança histórica e contradição institucional. Não costumam atribuir o bem-estar que gozam aos grandes altos e baixos da sociedade em que vivem. Raramente conscientes da intricada conexão entre os padrões de suas próprias vidas e o curso da história mundial, os homens comuns não sabem em geral o que essa conexão significa para os tipos de homens que estão se tornando e para os tipos de feitura da história de que poderiam fazer parte. Eles não possuem a qualidade mental essencial para apreender a interação de homem e sociedade, de biografia e história, de eu e de mundo. Não são capazes de enfrentar suas dificuldades pessoais de maneira a controlar as transformações estruturais que usualmente se encontram atrás delas.

Certamente isso não é de surpreender. Em que período tantos indivíduos foram tão completamente expostos a tamanhos terremotos de mudança num ritmo tão acelerado? Que os norte-americanos não tenham conhecido mudanças tão catastróficas quanto as experimentadas pelos homens e mulheres de outras sociedades deve-se a fatos históricos que estão agora se tornando com rapidez “meramente história”. A história que afeta agora todos os homens é a história mundial. Nesse cenário e dentro desse período, no curso de uma única geração, um sexto da humanidade é transformado de tudo que é feudal e atrasado em tudo que é moderno, avançado e aterrorizante. Colônias políticas são libertadas; novas formas menos visíveis de imperialismo são instaladas. Revoluções ocorrem; homens sentem a íntima dominação de novos tipos de autoridade. Sociedades totalitárias surgem, e são estraçalhadas – ou experimentam fabuloso sucesso. Após dois séculos de ascendência, o capitalismo aparece como apenas uma maneira de transformar a sociedade num aparato industrial. Após dois séculos de esperança, mesmo a democracia formal está restrita a uma porção muito pequena da humanidade. Por toda parte no mundo subdesenvolvido, maneiras de viver antigas são destruídas e expectativas vagas tornam-se exigências urgentes. Por toda parte no mundo superdesenvolvido, os meios de poder e de violência tornam-se totais em escopo e burocráticos na forma. A própria humanidade encontra-se agora diante de nós, a supernação em cada um dos pólos concentrando seus esforços mais coordenados e intensos na preparação da Terceira Guerra Mundial.

A própria conformação da história agora supera a capacidade dos homens para se orientar em conformidade com valores apreciados. E que valores? Mesmo quando não estão tomados de pânico, os homens percebem muitas vezes que maneiras mais antigas de sentir e pensar se desintegraram e que novos começos são ambíguos ao ponto da estase moral. É de espantar que homens comuns sintam que não podem lidar com os mundos mais vastos com que são tão subitamente confrontados? Que não consigam compreender o sentido de sua época para suas próprias vidas? Que – em defesa de sua individualidade – se tornem moralmente insensíveis, tentando permanecer inteiramente homens privados? É de espantar que venham a se sentir possuídos pela impressão da armadilha?

Não é somente de informação que eles precisam – nesta “Idade do Fato”, a informação muitas vezes domina sua atenção e esmaga suas capacidades de assimilá-la. Não é somente das habilidades da razão que precisam – embora suas lutas para adquiri-las muitas vezes esgotem sua energia moral limitada.

Aquilo de que precisam, e sentem que precisam, é uma qualidade mental que os ajude a usar informação e desenvolver a razão de modo a alcançar sínteses inteligíveis do que está acontecendo no mundo e do que pode estar acontecendo dentro deles mesmos. É essa qualidade, vou sustentar, que jornalistas e estudiosos, artistas e públicos, cientistas e editores estão passando a esperar do que pode ser chamado de imaginação sociológica.

A imaginação sociológica permite ao seu possuidor compreender o cenário histórico mais amplo em termos de seu significado para a vida interior e a carreira exterior de uma variedade de indivíduos. Ela lhe permite levar em conta de que maneira indivíduos, no tumulto de suas experiências diárias, tornam-se muitas vezes falsamente cônscios de suas posições sociais. Nesse tumulto, busca-se a estrutura da sociedade moderna, e dentro dessa estrutura formulam-se as psicologias de uma variedade de homens e mulheres. Por esses meios, a inquietação pessoal de indivíduos é concentrada em dificuldades explícitas e a indiferença de públicos é transformada em envolvimento com questões públicas.

O primeiro fruto dessa imaginação – e a primeira lição da ciência social que a corporifica – é a idéia de que o indivíduo só pode compreender sua própria experiência e seu próprio destino situando-se dentro de seu período, de que ele só pode conhecer suas próprias chances na vida tornando-se consciente daquelas de todos os indivíduos em suas circunstâncias. Sob muitos aspectos, é uma lição terrível; mas também, sob muitos aspectos, uma lição magnífica. Não conhecemos os limites das capacidades do homem para esforço supremo ou degradação voluntária, para agonia ou júbilo, para a brutalidade prazerosa ou a doçura da razão. Mas em nosso tempo descobrimos que os limites da “natureza humana” são assustadoramente amplos. Descobrimos que todo indivíduo vive, de uma geração para outra, em alguma sociedade; que ele vive uma biografia, e que ele a vive dentro de uma seqüência histórica. Pelo fato de viver, contribui, ainda que minimamente, para a conformação dessa sociedade e para o curso de sua história, mesmo que seja feito pela sociedade e por seu empurra-empurra histórico.

A imaginação sociológica nos permite apreender história e biografia e as relações entre as duas na sociedade. Essa é sua tarefa e sua promessa. Reconhecer essa tarefa e essa promessa é a marca do analista social clássico. É característico de Herbert Spencer – bombástico, polissilábico, abrangente; de E.A. Ross – elegante, chegado a denúncias de corrupção, honrado; de Auguste Comte e Emile Durkheim; do intricado e sutil Karl Mannheim. É a qualidade de tudo que é intelectualmente excelente em Karl Marx; é a chave para a brilhante e irônica perspicácia de Thorstein Veblen, para as multifacetadas construções de realidade de Joseph Schumpeter; e a base do alcance psicológico de W.E.H. Lecky, não menos que da profundidade e clareza de Max Weber. E é o sinal do que há de melhor em estudos contemporâneos do homem e da sociedade.

Nenhum estudo social que não retoma aos problemas de biografia, de história e de suas interseções numa sociedade completou sua jornada intelectual. Sejam quais forem os problemas específicos dos analistas sociais clássicos, por mais limitados ou por mais amplos que sejam os traços da realidade social que eles examinaram, aqueles que estavam imaginativamente cientes da promessa de seu trabalho fizeram com persistência três tipos de perguntas:

1) Qual é a estrutura dessa sociedade particular como um todo? Quais são seus componentes essenciais, e como eles se relacionam entre si? Como ela difere de outras variedades de ordem social? Dentro dela, qual é o significado de qualquer traço particular para sua continuação e para sua mudança?

2) Onde se situa essa sociedade na história humana? Quais são os mecanismos pelos quais ela está mudando? Qual é seu lugar no desenvolvimento da humanidade como um todo e qual é seu significado para ela? Como qualquer traço particular que estamos examinando afeta o período histórico em que ela se move, e como é afetado por ele? E sobre esse período, quais são seus traços fundamentais? Como ele difere de outros períodos? Quais são suas maneiras características de fazer a história?

3) Que variedades de homens e mulheres prevalecem agora nessa sociedade e nesse período? E que variedades estão passando a prevalecer? De que maneiras eles são selecionados e formados, liberados e reprimidos, tornados sensíveis e embotados? Que tipos de “natureza humana” são revelados na conduta e no caráter que observamos nessa sociedade durante esse período? E qual é o significado para a “natureza humana” de cada um dos traços da sociedade que estamos examinando?

Quer o ponto de interesse seja uma grande potência ou uma tendência literária menor, uma família, uma prisão, um credo – estes são tipos de perguntas que os melhores analistas sociais fizeram. Elas são os eixos intelectuais dos estudos clássicos do homem na sociedade – e são as perguntas inevitavelmente suscitadas por qualquer mente dotada da imaginação sociológica. Pois essa imaginação é a capacidade de passar de uma perspectiva para outra – do político para o psicológico; do exame de uma única família para a avaliação comparativa dos orçamentos nacionais do mundo; da escola teológica para a organização militar; de considerações sobre uma indústria de petróleo para estudos de poesia contemporânea. É a capacidade de oscilar entre as transformações mais impessoais e remotas e os traços mais íntimos da pessoa humana – e de ver as relações entre os dois. Por trás de seu uso está sempre o anseio por conhecer o significado social e histórico do indivíduo na sociedade e no período em que ele tem sua qualidade e seu ser.

É por isso, em resumo, que se espera que através da imaginação sociológica os homens possam agora captar o que está acontecendo no mundo, e compreender o que está se passando em si mesmos como minúsculos pontos de interseção de biografia e história dentro da sociedade. Em grande parte, a visão autoconsciente que o homem tem de si mesmo como pelo menos um outsider, se não um estrangeiro permanente, repousa sobre uma percepção absorta da relatividade social e do poder transformador da história. A imaginação sociológica é a forma mais frutífera dessa autoconsciência. Mediante seu uso, homens cujas mentalidades abrangeram apenas uma série de órbitas limitadas chegam muitas vezes a se sentir como se tivessem despertado de repente numa casa com que haviam apenas suposto ter familiaridade. Correta ou incorretamente, chegam muitas vezes a sentir que podem agora suprir-se de sínteses adequadas, avaliações coerentes, orientações abrangentes. Decisões mais antigas, que outrora pareciam sólidas, agora lhes parecem produtos de uma mente inexplicavelmente obtusa. Sua capacidade de espanto é revigorada. Eles adquirem uma nova maneira de pensar, experimentam uma transposição de valores: numa palavra, por sua reflexão e por sua sensibilidade, compreendem o significado cultural das ciências sociais.

[Trecho Inicial do livro "A Imaginação Sociológica", publicado em 1959 - Mills, C. Wright. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges]

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DIA DAS MÃES TEM QUE SER TODO DIA

Virgílio de Mattos

Uma das questões de resposta mais difícil é o que fazer quando a violência parte da polícia? Quando a violência vem do particular, chamar a polícia pode ser até entendido por alguns como uma saída, mas é quando é a própria polícia que vitimiza a população?

Instituições como as corregedorias, ouvidorias, comissões de direitos humanos têm seu lugar no Estado Democrático de Direito, mas a verdade é que quando a vítima é pobre ou tem “passagem pela polícia”, quase sempre quando se junta estas duas condições em uma só ocorrência o descaso é a única resposta desses órgãos, ou pior: quando se faz caso de algum caso a efetividade é pequena ou nenhuma. Não importa de que lugar do Brasil se esteja falando.

O contato recente com duas lideranças das Mães de Maio, organização que se mobilizou para cobrar o massacre policial praticado no Estado de São Paulo em maio de 2006 contra jovens pobres, foi bastante significativo para entender que a polícia daquele estado continua matando os jovens pobres até hoje, encobrindo o genocídio com a ilusória cobertura “legal” de resistência seguida de morte.

O que as Mães de Maio pedem pode ser resumido em uma única palavra: justiça. Concretamente pedem que os “Crimes de Maio de 2006”, expressão que exemplifica que em apenas uma semana foram trucidados mais de 500 jovens em São Paulo, sejam desarquivados e que tenham sua competência transferida para a justiça federal, verdadeiro genocídio que foram. E que este massacre sirva como marco para abolição definitiva de sua camuflagem: os “autos de resistência” ou “resistência seguida de morte”, comumente utilizados pela polícia paulistana para encobrir o homicídio de jovens pobres, em sua maioria negros ou pardos e moradores das vilas e da periferia.

Para as mães, esposas, irmãs, filhas e amigas das vítimas as portas estão sempre fechadas o acesso à justiça frequentemente é confundido com acesso ao Judiciário, que não é – e nem pode ser considerado como – a mesma coisa.

Causa perplexidade que tenha sido a organização Mães de Maio e não aqueles pagos por nós para investigar e apurar crimes que tenham se mobilizado para a apuração do massacre quando ninguém – competente por força da lei para tanto – fez nada.

A transferência para a Justiça Federal impõe-se porque até hoje não se tem, conforme insistentemente pedido pelas Mães de Maio, a relação das viaturas policiais mobilizadas no dia do massacre, bem como seus percursos, armas e munições e relação dos integrantes. Convenhamos: se o estado de São Paulo quisesse verdadeiramente apurar o massacre esses seriam os primeiros passos fundamentais, por isso a transferência de competência é uma necessidade.

Segundo relato das lideranças do movimento há um acórdão do TJSP, de novembro de 2011, reconhecendo que foi o estado, via seus agentes armados, que promoveu o massacre.

E assim como aquelas mães, esposas, filhas, demais parentes e amigos das vítimas nó nos perguntamos:

ATÉ QUANDO O ESTADO CONTINUARÁ TORTURANDO E MATANDO?

À violência do massacre o estado responde com a violência do acobertamento.

A acomodação e o silêncio da sociedade é que garante que possam agir assim. Não é passada a hora de darmos um basta nisso tudo?

Visite o blog do movimento: http://maesdemaio.blogspot.com/

e dê sua contribuição.

 

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GREVE OU MOTIM?

Virgílio de Mattos

Terroristas, baderneiros, irresponsáveis! Não são com essas palavras “gentis” que a direita sempre acusa os movimentos grevistas dos trabalhadores, na eterna luta por melhores condições de vida e de trabalho?

Na aula passada na graduação (ah, como é bom uma turma nova, todos interessantes e interessados, com olhares assustados sobre as dúvidas mais simples de sempre: como é que será a prova desse cara?) fizemos a desmistificação do discurso ausente da sua contextualização e, sobretudo, do que quer dizer um quantitativo em pesquisa a campo (só mal-intencionados e medrosos patológicos podem ter medo da “soberania” do campo na pesquisa-ação). Gosto da cara que fazem quando entendem, os olhos faíscam um brilho que me motiva e tem sido meu motor, eu que me preocupo sempre tanto com tantos mesmo sabendo que isso representa tão pouco.

Mas fazendo o exercício de democracia direta, direito a voto incluído, a metade da sala cria em greve enquanto a outra acreditava em motim.

Mesmo armados?

Votei em motim na natureza jurídica do movimento paredista dos policiais militares baianos e gostaria de trazer a você, leitor preocupado, os meus porquês.

Óbvio que espalhar o pânico e tocar o terror são expressões sinônimas, embora usadas por blocos – para dizermos elegantemente em tempos carnavalescos – opostos nesse carnaval de paralisação da polícia militar baiana.

Encapuzados tocam fogo em ônibus e tocam o terror na Bahia e; pensem num absurdo que tem um precedente na Bahia dizem os baianos; só que têm relação com o bloco treinado, armado e pago pela população para conter, dentre outros, esse típico tipo de violência terrorista.

Se até a Presidenta ficou estarrecida imagine um trabalhador comum.

Pergunte a vários professores, por exemplo, mesmo àqueles que não estão em início de carreira, do que acham sobre um piso nacional no valor de R$ 3.500,00 para a categoria laboral a qual pertencem.

No Rio de Janeiro os policiais militares, civis e os bombeiros militares também estão em greve, embora os respectivos comandos neguem

Presos por “conclamação e incitação” a greve, vedada constitucionalmente (Art. 142- IV –ao militar são proibidas a sindicalização e a greve), tecnicamente, legalmente os policiais militares, quer baianos, quer cariocas, estão amotinados, não em greve

No Rio foram presos – e encaminhados para Bangu I, unidade prisional de segurança máxima – um coronel, um major (ambos reformados), um sargento e vários cabos.

A instituição é ríspida no trato com os familiares que têm dificultado o contato com os presos, mesmo provisórios. O que não se constitui nenhuma novidade.

A novidade, penso, vem do fato de 16 dos PMs cariocas terem sido presos por “crime de desobediência”, comuns para criminalização dos movimentos sociais. Essa é a contradição maior, penso, a criminalização dos movimentos sociais vem sendo feita até contra seus próprios agentes da ponta do balcão.

No norte do Estado do Rio, região política do garotinho que tem articulado o movimento, junto a pessoas das mais variadas idades e uma mesma crença religiosa, foram presos mais de uma centena por cometimento de crime militar próprio. Há, na outra ponta do espectro político uma deputada de partido trotskista.

Enquanto o Ministro da Justiça diz que está tudo “sob controle”. O comandante geral da PMRJ diz que só ele é o representante legal da corporação que pode negociar com o governo do estado, no que legalmente não está equivocado.

R$3.500,00 de piso unificado, vale-transporte de R$350,00, mais vale-refeição de R$350,00. Acredito que seja uma boa pauta mínima para qualquer trabalhador brasileiro, só que exigir isso armado é que eu penso que não dá.

Categoria que tem no armamento seu instrumento de trabalho é regida por outro estatuto, tem outro tipo de garantias.

Ou seriam todos uns comunistas comedores de criancinhas, como as polícias sempre trataram os manifestantes em campanhas salariais?

Fico mais com motim. Isso não é greve e não estou assistindo o povo armado. Povo armado na rua não passa na rede bobo de TV.

 

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CONVITE

Companheiras e companheiros,

Neste fim de semana, dentro do Verão Arte Contemporânea/VAC6, haverá o evento AS BRUXAS ESTÃO SOLTAS, um conjunto de atividades cuja centralidade é a luta feminina e feminista.

Dias: 03,04 e 05/02/2012 (sexta, sábado e domingo próximos)

Local: Fundação de Educação Artística/ Sala Sergio Magnani
Rua Gonçalves Dias, 320 (esquina com Av. Getúlio Vargas), Bairro dos Funcionários

Programação:

Mostra de documentários – dias 03 e 04/02, sábado e domingo, às 17 horas:

- Arquivos Imperfeitos (10’) – documentário de Sávio Leite sobre a trajetória de D. Helena Greco, militante e defensora dos direitos humanos, falecida em 2011, em BH, aos 95 anos de idade;

- São Paulo Estado Genocida (55’) – documentário produzido pelo Tribunal Popular: o Estado no banco dos réus, sobre a chacina perpetrada pela Polícia Militar de São Paulo em maio de 2006, quando 493 pessoas – maioria de jovens e negros – foram sumariamente executadas. Esse massacre continua sem apuração e grande parte das vítimas continua desaparecida. O filme trata da resistência dos seus familiares e da luta das Mães de Maio, de São Paulo;

- Documentário sobre a feminista brasileira história, Rose Marie Muraro, que completou 80 anos em 2011.

Debates:

- Dia 03/02, 6ª feira, às 20:00, com as escritoras Lúcia Castello Branco (MG), Conceição Evaristo (RJ) e Salette Maria (cordelista e feminista do Ceará). Esse debate será coordenado pela profa. Sandra Goulart, da Faculdade de Letras da UFMG;

- Dia 04/02, sábado, às 20:00 – homenagem à D. Helena Greco, com Débora Silva e Vera Lúcia Freitas (Mães de Maio/SP), D. Tereza (Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade) e Heloísa Greco / Bizoca (Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania). A coordenação será feita por Nilcea Moraleida. Haverá o lançamento do livro Do Luto à Luta que conta a trajetória do Movimentto Mães de Maio.

- Dia 05/02, às 18:00, Concílio das Bruxas, com todas as mulheres que participaram das mesas anteriores e tribuna livre – coordenação e performance do Grupo Oficcina Multimedia.

Contamos com a presença e a participação de todas e de todos. Saudações libertárias, abração, Bizoca.

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Juízes: despreparados, ou ideológicos?

 Edésio Fernandes

Dentre muitas outras questões profundamente relevantes – gestão urbana excludente, falência da política, truculência policial, etc. – as chocantes cenas do despejo das centenas de famílias do Bairro do Pinheirinho no estado de São Paulo, muitas delas residentes no local há mais de 8 anos, trouxeram à tona um outro tema que também requer atenção urgente: a maneira como os juízes brasileiros têm lidado com os conflitos sociojurídicos em torno do direito social de moradia, especialmente a maneira como a maioria das decisões judiciais nesses casos tem repetidamente ignorado e desrespeitado os princípios básicos da ordem jurídica em vigor. Com todo o respeito aos juízes cujas decisões têm defendido com vigor esse direito constitucional, infelizmente a verdade é que eles ainda são a exceção que confirma a regra.

Desocupação do Pinheirinho

Lidando com conflitos sociojurídicos de direito de moradia, atualmente como no passado, a maioria das decisões judiciais ainda se baseia quase que exclusivamente em uma leitura reducionista do Código Civil Brasileiro-CCB, afirmando uma noção obsoleta do direito individual de propriedade imobiliária como se fosse um direito absoluto, essencialmente de cunho econômico. Isto é, o direito de usar, gozar e dispor do bem imóvel ainda é compreendido pela jurisprudência dominante tão-somente de acordo com os interesses do proprietário, a ponto de se justificar sem maiores qualificações o não-uso, o não-gozo e a não-disposicão do bem imóvel – em outras palavras, o direito de irrestrito de especular. Por um lado, a enorme maioria dessas decisões judiciais não tem feito quaisquer referências ao princípio central da Constituição Federal de 1988 – e que foi devidamente assimilado pela revisão do CCB em 2002 – da função social da propriedade. Ou seja, a noção jurídica de que não há direito individual de propriedade imobiliária sem consideração prévia e plena pelo poder público dos interesses sociais na utilização, fruição e disposição do bem. Não há nelas qualquer compreensão de que a propriedade não apenas significa direitos individuais, mas, sobretudo gera responsabilidades sociais e toda uma série de obrigações para o proprietário. De acordo com a CF 88, o não cumprimento da função social da propriedade gera, dentre outras conseqüências, o direito de usucapião nas suas várias categorias, inclusive o usucapião especial urbano em 5 anos. Por outro lado, tampouco há quaisquer referências nessas decisões judiciais ao outro principio constitucional que explicitamente reconhece o direito social de moradia, incluindo o direito coletivo a regularização dos assentamentos informais consolidados em áreas privadas e públicas.

Basta ler o teor dessas sentenças hegemônicas para perceber que elas também não fazem referências mínimas ao internacionalmente aclamado Estatuto da Cidade, a lei federal de política urbana de 2001, e nem a toda  abundante legislação federal em vigor sobre questões fundiárias, urbanas, habitacionais e ambientais. O mesmo vale para as sentenças de desapropriação em áreas urbanas, que raramente mencionam essa nova e farta ordem jurídico-urbanística. Parece que uma visão profundamente anacronística do Direito Civil sobre o direito de propriedade imobiliária ainda reina absoluta entre a maioria dos juízes brasileiros.

Se a ordem jurídica nacional tem sido ignorada, o que dizer então do Direito Internacional… todas as declarações, tratados e convenções assinados e ratificados pelo governo brasileiro ao longo de décadas, e que também explicitamente reconhecem o direito social de moradia – inclusive determinando as condições para a legalidade dos despejos-, não têm recebido a consideração devida pela jurisprudência.
A explicação para esse profundo descompasso entre o teor das sentenças judiciais e os princípios tão claramente estipulados pela nova ordem jurídica brasileira se deve a uma combinação de dois fatores principais. Em alguma medida, as sentenças revelam o despreparo dos juízes para lidarem juridicamente com os conflitos sociojurídicos de propriedade como conseqüência imediata do fato de que o Direito Urbanístico, ramo do Direito Público brasileiro que nos termos da CF 88 organiza os princípios, leis e instrumentos dessa nova ordem jurídico-urbanística, não tem sido ensinado na maioria das Faculdades de Direito do país, que ainda seguem um currículo obsoleto e em muitos aspectos dissociado das questões sociojurídicas contemporâneas. Ainda há nos currículos dos cursos jurídicos uma carga excessiva de estudos de Direito Civil – e mesmo assim, tratando de maneira mistificadora o que diz respeito ao direito de propriedade imobiliária, já que de modo geral o ensino do Direito Civil no país não tem expressado a realidade constitucional de que o direito de propriedade é essencialmente um tema de Direito Público, tendo os interesses públicos e direitos sociais supremacia sobre os interesses particulares e direitos individuais. Como resultado dessa tradição obsoleta de ensino jurídico, a maioria dos juízes sequer sabe da existência do internacionalmente premiado Estatuto da Cidade; muitos deles, quando questionados, pensam que se trata do Estatuto da Terra de 1964…

Se o despreparo e a desinformação dos juízes são fatos reais, há um outro fator ainda mais relevante que explica o descompasso entre o teor das sentenças judiciais e os princípios da nova ordem jurídico-urbanística: não se pode mais ignorar a natureza profundamente ideológica dessas decisões judiciais como a do caso do Pinheirinho.

Ao ignorarem toda a ordem jurídica de Direito Público em vigor quanto ao direito individual de propriedade imobiliária, privilegiando uma leitura reducionista, distorcida e elitista do próprio CCB, tais decisões revelam não apenas uma total falta de sensibilidade social dos juízes – frequentemente em nome de uma noção enganadora de que o Direito seria “objetivo” e “neutro” em relação aos processos sociopolíticos, e que rotula as demandas pelo reconhecimento dos direitos sociais de moradia como “ideológicas” e/ou “político-partidárias”–, mas também um grande desprezo pelo Direito. Afinal, se eles não aprendem nas Faculdades de Direito que se encontra em vigor toda uma nova ordem jurídico-urbanística que determina uma nova concepção de direito de propriedade, cabe aos juízes por dever de ofício fazer esse trabalho renovado de leitura e interpretação constitucional e legislativa, com base em uma ampla pesquisa doutrinária, antes de emitirem suas sentenças.

Esse desprezo pela ordem jurídica em vigor – especialmente pelos princípios da função social da propriedade e direito social de moradia – expressa sobretudo a enorme resistência da maioria dos juízes de aceitar que os pobres possam ter direitos próprios de posse e propriedade, sobretudo nas áreas mais centrais e cobiçadas das cidades. Com freqüência, ocupantes de terras são vistos como meros usurpadores. Essas sim são decisões politicamente ideológicas, na medida em que não se baseiam em uma leitura sólida feita por dentro da própria ordem jurídica, mas que expressam valores pessoais e especialmente preconceitos de classe dos juízes. Infelizmente, o Ministério Público – a quem cabe defender a ordem pública e a ordem urbanística – também tem se recusado a cumprir esse papel no que diz respeito aos direitos sociais de moradia dos mais pobres, enquanto a brava Defensoria Pública, que tem abraçado o princípio constitucional com vigor, tem sido esvaziada e mesmo esfacelada por toda parte.

Há todo um outro discurso jurídico, sólido e consistente, que poderia e deveria ser construído pelos julgadores na resolução dos conflitos sociojurídicos de direito social de moradia a partir de uma leitura articulada da CF 88, das leis nacionais como o Estatuto da Cidade – inclusive uma leitura mais ampla e atualizada do próprio CCB – e das normas internacionais ratificadas pelo Brasil. Cabe aos juízes consolidar na jurisprudência um discurso jurídico dominante que reconheça o direito social de moradia em suas diversas manifestações, e que, no caso de despejo inevitável, condicione a legalidade dessa decisão sempre tão traumática para as famílias a uma serie de exigências, incluindo a negociação de alternativas aceitáveis de relocalização.

Politicamente ideológica não é a defesa dos direitos sociais de moradia, que têm uma firme base constitucional, mas sim a recusa dos juízes de abraçarem incondicionalmente esse novo discurso jurídico duramente construído como parte do processo de redemocratização sociopolítica e jurídica do país. Ao optarem por uma leitura distorcida e enganadora do CCB, condenando milhares de famílias ao despejo, desamparo e humilhação, negando a elas direitos de posse e propriedade que são delas como se estivessem agindo em nome de alguma verdade jurídica universal, natural e objetiva, tais decisões têm cumprido duas funções principais: recompensar os proprietários de imóveis que deixaram de dar uma função social a seus bens, assim reproduzindo com vigor renovado toda uma visão individualista e mercantilista do direito de propriedade imobiliária, bem como fomentando uma cultura sociojurídica essencialmente patrimonialista e especulativa; e fortalecer as administrações públicas excludentes que têm abusado cada vez mais da noção de “interesse público” para promoverem grandes intervenções nas áreas urbanas que mais diretamente beneficiam os interesses do capital imobiliário às custas do direito de moradia de milhares de famílias pelo Brasil afora.

Despreparados, insensíveis e sobretudo elitistas, movidos não pela leitura da ordem jurídica em vigor mas principalmente por preconceitos de classe, ao desprezarem tão abertamente a ordem jurídica democrática, esses juízes têm justificado e reforçando ainda a descrença generalizada no Poder Judiciário – certamente o elo mais fraco no recalcitrante processo de redemocratização do país. Para as milhares de famílias atingidas, suas sentenças têm tido os mesmos efeitos concretos da deplorável violência policial que tanto nos envergonha enquanto nação.

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Edésio Fernandes é Doutor em Direito Urbano – Warwick, UK

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DIGNO DE UMA GRANDE COMEMORAÇÃO

Virgílio de Mattos

Lembro-me dela na escola. Era uma escola especial dentro de um outro local especialíssimo. Ela me olhava com um jeito tímido desde o dia em que nos conhecemos, parecia uma criança. Sabe esse jeito de olhar que parece que a pessoa tá rindo? Ela olhava assim. Desse jeito. Ou ria de mim me olhando daquele jeito, como se pensasse: esse otário vive aqui onde ninguém quer ficar.
Na festa de formatura do ensino médio, até hoje uma raridade ali naquela escola, conseguimos fazer alguma coisa em grande estilo no refeitório, acho que o Sindieletro emprestou o som, ela continuava com o olhar quase mágico nos olhos trágicos cheios de lágrimas. Naquele dia todo mundo chorou de alegria, o que não deixa de ser uma contradição em termos.
Na memória ainda mais nítido o dia do vestibular. Puta que pariu, ô dia tenso. Só conseguimos os papéis todos na véspera, todo mundo numa má vontade de irritar. Parecia que não seria possível que ela e outras cinco colegas pudessem fazer a prova. Parecia uma corrida de obstáculos.
Até na hora de sairmos pra fazer a prova teve enguiço. Não sei se você se recorda do faniquito que a B. deu por causa da roupa, aquela tensão, todo mundo armado e inseguro com a escolta pouco usual. A doutora me perguntou onde é que estava a minha arma e eu respondi sem graça que tava dentro da pasta. Ela ainda me enquadrou dizendo que se eu precisasse como é que iria fazer até tirar a arma de dentro da pasta? Assim como você e as suas outras cinco colegas eu era um dos poucos desarmados naquele dia. Sabia que as únicas armas necessárias seriam o lápis n.2, a borracha e a caneta preta. O resto já estava dentro da cabeça.
Dei voltas pra ver se você via um pouco a cidade, mas a responsável pela segurança me deu uma dura observando que o caminho tinha que ser o mais curto possível e que a gente era pra estar em comboio. Acho que ela tava com medo, na verdade. Medo de vocês se saírem bem como saíram e aí? Como é que iria ser depois?
Você, minha querida, muito mais do que todos os outros colegas da sua turma – e então, acabou falando tudo pra eles ou ficou na sua? – sabe que essa conquista, o fato em si, é digno de uma grande comemoração.
Eu não vou à festa, não gosto de festa formal. Mas gostei de ter sido convidado. Colocar um terno é definitivamente uma proposta que não me seduz, nem pra ganhar dinheiro tenho usado. Também não irei à colação de grau, acho uma coisa tão insuportável que fico pensando porque não foi ainda abolida. Culto ecumênico você mesma riu do convite porque sabe que não sou dessa gangue. A religião é uma droga pesada que cria dependência e mata.
Fiquei sabendo que você nominou a gente no seu convite, que bandeira, heim?! E que tem gente roendo os cotovelos de inveja de você. Bem feito!
Eu queria dizer, J., que além de querer ter uma filha igual a você, que você me deu um orgulho imenso com a sua amizade e, sobretudo, com a lembrança. Acredito que só você mesma sabe dizer o quanto foi difícil superar os anos de universidade naquelas condições terríveis da penitenciária e da liberdade condicional depois dela. Não é só daquele lado, aqui também tá muito embaçado.
Agora que você tá formada, no mundão, cheia de condição e vontade – disposição nunca faltou, não é mesmo? – vê se tem como ajudar as companheiras de sofrimento, vê se tem como adiantar o lado do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade de algum modo, nem que seja só falando bem.
Seu exemplo, J., é digno de uma grande comemoração.    Vai na paz!

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E BUSH JÚNIOR?

Virgílio de Mattos

            “Não substituir o povo. A representação é uma impostura”

Muammar Al Kadhafi, no Livro Verde, p. 25

 “Toda una vida de caerse y levantarse para seguir peleando a corazón partido. Hasta que los tiempos cambian. El amor madura, el odio muta en dolor, se aprenden nuevas formas de lucha. Por los que vienen y por los que ya no están, los sobrevivientes renacen y vuelven a empezar, para no morir.”

Santiago O’Donnell, no Página 12 de hoje.

Trucidado em Sirte, sua terra natal, o governante líbio – herói de minha adolescência e de minha geração – resistiu até a morte. Uma sábia amiga muito querida, de mais idade e daquela região, censurou-lhe a “ingenuidade”. “Não estava armado? Tinha que ter se matado”.

Às vezes não dá. A maldade humana é pegajosa demais, é sensível a dinheiro demais é envolvente demais.

Kadhafi resistiu durante mais de quarenta anos (e, obviamente fez muita merda nesse tempo todo, mas olhe você para sua própria vida e perceba a quantidade de merda que já fez. Afinal merda literal a gente faz todo dia.). Assim como a Palestina está ocupada e resiste há quarenta anos, assim como meu amor pelo socialismo científico fez quarenta anos, assim como a primeira ação militar do ETA fez quarenta anos.

Os tempos mudam. A vida muda. A gente muda a vida e é mudado pela força inexorável da passagem do tempo.

Obviamente que só o passar do tempo vai aclarar quem foi o informante (a nacionalidade é marroquina e a profissão é mercenário) e quem foram os executores (sabe-se de paramilitares colombianos da temível organização de direita Autodefensas Unidas de Colômbia estiveram com o prisioneiro em seus últimos momentos e faziam relatos via rádio aos seus patrões do Qatar e EUA).

Não gostaria e não vou lembrar-me dele enxugando o abundante sangue que lhe escorre do lado esquerdo do rosto, ainda incrédulo, talvez, com o fim do fim tão próximo.

O desrespeito ao corpo morto não é nada comparado àquele sofrido pelo corpo ainda vivo.  Vi vários ferimentos de pequeno calibre (9 mm?) no tórax e dois no rosto (no frontal e logo acima do maxilar, do lado esquerdo) com “marca de tatuagem nas bordas” que é o que a gente aprende em medicina legal como característica principal de disparo à queima roupa.

Nenhuma comemoração a ser feita. A menos que você seja executivo de companhia de petróleo. Ou um filho da puta – ia escrevendo, mas refreei-me a tempo.

Um mártir. Viveu como um catalisador que fez de várias tribos um país. Morreu como um mártir.

Quero ver o que irá virar a Líbia, que com ele era um país. Um monte de tribos esparsas de novo?

Sob o jugo da potência hegemônica da vez?

Enquanto seus inimigos ainda comemoram não me canso de me perguntar: e o final de Bush Júnior, como será?

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